Peter Gray

Esse post vai quebrar um pouco o ritmo dos post anteriores.

Até agora eu escrevi algumas linhas com minhas reflexões sobre o assunto juntamente com uma tradução inteira de um dos podcasts do Unschooling Life.

Minha idéia agora é pegar partes mais interessantes da tradução, misturar com outras coisas que eu li, e salpicar com exemplos da nossa própria experiência. Acredito que isso vai tornar as coisas mais divertidas, ao menos para mim. 😉

Peter Gray é um psicólogo evolucionista. Em seu livro Free to Learn (Livres para brincar), Peter diz que crianças, quando livres para buscar seus próprios interesses por meio da brincadeira, irão não apenas aprender tudo que eles precisam aprender, mas farão isso com energia e entusiasmo.

“Nós não teríamos sobrevivido sem a habilidade de aprender de forma natural” – Peter Gray em entrevista ao Portal do Aprendiz.

Essa forma natural a que ele se refere é o BRINCAR.

Em sua entrevista com Amy Childs, para o podcast Unschooling Life, Peter fala sobre a principal observação que fez com que ele se interessasse pelo tema: o declínio do brincar na sociedade norte-americana nos últimos 60 anos e as consequências disso.

Consequências como o aumento contínuo, no mesmo período, de vários tipos de problemas mentais nas crianças.

Ele cita a taxa de depressão e de ansiedade em crianças ter aumentado de 5 a 8 vezes o que eram nos anos 50.

Eu encontrei mais detalhes de como foram feitas essas pesquisas em sua palestra no TED:

 e também aqui: http://www.journalofplay.org/sites/www.journalofplay.org/files/pdf-articles/3-4-article-gray-decline-of-play.pdf

Nesta mesma palestra no TED, Peter fala que uma das razões do declínio do brincar é resultado de muito tempo gasto com atividades escolares: anos letivos maiores, mais horas em salas de aula e menos tempo de recreação.

Outra razão, surgiu de uma ideia disseminada, além da escola, de que crianças irão aprender o que aprendem sempre de adultos. Que as atividades guiadas pelas crianças, elas mesmas, são uma perda de tempo. Ainda que não digamos assim, tão cruamente, este é o entendimento implícito. Desta forma, a infância muda de um período de liberdade para um período de construção de curriculum vitae.

Mais um motivo para a redução do brincar é o MEDO. Medo muitas vezes irracionais, propagados pela mídia e por expertos que estão constantemente nos avisando sobre os perigos que existem “lá fora”, se nós não estivermos olhando nossos filhos cada minuto.

Eu quero muito escrever um pouco mais sobre isso depois, pois acredito que esse mesmo medo influencia nossas vidas em muitas outras esferas.

Voltando ao podcast, Peter define o que é “brincar”:

Brincar é uma atividade direcionada e regida pelos participantes eles mesmos. Brincar é uma atividade na qual você pode espontaneamente participar, e espontaneamente abandonar. Se você não estiver se divertindo, você pode sair. Esta habilidade de renúncia é parte essencial do brincar, no entanto, este não é o caso quando você está envolvido em atividades formais direcionada por adultos.

Amy pergunta: O que as crianças aprendem brincando?

Uma das coisas que elas aprendem é como lidar com emoções fortes, como medo. (Olha ele ai de novo!)

De uma perspectiva evolucionista, crianças brincam de maneiras arriscadas para aprender como lidar com medo. Elas podem dizer a si mesmas: “Eu posso fazer isso, eu posso sentir esse medo e ainda controlar minha mente e meu corpo, eu posso dominar meu medo.” Crianças tem um bom senso do que é realmente perigoso. Do que elas podem e do que não podem fazer.

Outra coisa muito importante que elas aprendem brincando é como não ser egoístas. Elas aprendem a prestar atenção nas necessidades de outras pessoas. Quando não há adultos por perto, elas precisam prestar atenção. Precisam aprender a se adaptar, a chegar a um consenso, ou as outras crianças vão desistir de brincar junto. Todos nós precisamos negociar um pouco, isso é essencial para o relacionamento humano. E nós aprendemos brincando. Aprendemos a observar as expressões sutis nas faces de nossos amigos, se eles estão se divertindo ou não. Brincar nos dá a oportunidade de afinar essa capacidade.

Ele também cita como brincar ajuda a aprender habilidades intelectuais, pois brincar é sempre uma atividade criativa, sempre envolve imaginação, envolve pensar hipoteticamente. Da mesma maneira como pensam cientistas ao desenvolver uma hipótese, ou como pensam arquitetos ao desenhar uma casa. Você precisa imaginar uma coisa que ainda não existe, e precisa pensar logicamente a respeito disso.

“O que eu tento descrever no meu livro é que até hoje, nas sociedades modernas, esses instintos de aprendizado ainda estão em funcionamento. Se nós promovemos oportunidades de auto-aprendizado, socialização e brincadeira, elas vão ter um aprendizado significativo.” Peter Gray.

 

Por fim, Peter nos lembra que crianças/pessoas também descobrem seus interesses brincando. Para algumas crianças brincar de construir com blocos é divertido. Para outras, imaginar uma história, para outras, fazer roupas e cenários. Elas descobrem o que gostam de fazer e desenvolvem habilidades reais fazendo isso. Dai, algumas descobrem uma forma de serem pagas para isso e seguem carreiras fazendo o que elas tinham prazer de fazer quando brincavam, desde crianças.

Peter também diz que brincar é o lugar onde as crianças tem controle sobre suas próprias vidas. Quando tiramos isso delas, nós tiramos a oportunidade de aprenderem como controlar suas vidas. Brincar é onde elas aprendem que o mundo não é tão assustador, nem tão deprimente…  Mais uma vez ele associa como a falta de um senso de controle sobre sua própria vida predispõe a pessoa para ansiedade e depressão.

(Na minha vida eu pude observar isso algumas vezes. Durante minha adolescência passei por momentos de doença mental como depressão, bulimia e anorexia. Lembro do alívio que senti quando eu consegui racionalizar o porquê do meu comportamento em relação a comida ser tão prejudicial: Eu estava tentando exercer algum controle na minha vida, e um dos poucos lugares onde eu tinha permissão para fazer isso era com comida.)

Toda esta história também me fez lembrar de um estudo dos anos 70, chamado Rat Park. O estudo observa o vínculo que existe entre privar ratos de brincar (e também privá-los de suas comunidades), e o vício em drogas.

Leia mais sobre este estudo aqui.

Ou se você entender inglês assista um vídeo bacana sobre isso aqui.

Peter pede, ao final de sua palestra do TED, que o mundo pare de clamar por mais escolas, e troque por mais brincar.

“A educação precisa ser autônoma, não podemos mais decidir por um grupo inteiro de crianças, exigir que todas elas se interessem pela mesma coisa ao mesmo tempo.”

Para isso, primeiro precisamos reconhecer que o problema existe. Depois, devemos examinar nossas prioridades: O que queremos para nossos filhos e como alcançar isso? Como parte da solução ele propõe algumas mudanças relacionadas ao contato com vizinhos, e levanta propostas relativas ao espaço que as crianças tem para brincar nas comunidades.

Você pode ler mais sobre Peter em seu blog: Freedom to Learn.

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