Dar a luz a nós mesmos, aos nossos filhos, e ao nosso mundo.

“Quando ‘se tornar um unschooler’ é compreendido como ‘reavaliar tudo que você achava significar estar vivo,’ fica mais fácil entender porque o que sentimos é, as vezes, tão impossível e opressor.”

Como eu já falei aqui, uma das pessoas que me inspira nessa jornada de aprender para a vida toda foi a Amy Childs. Ela é autora dos podcasts que eu gosto de ouvir e também escreveu um texto que traduz bem as maiores dificuldades de estar vivo e ter filhos nesse mundo louco ser unschooler.

Abaixo segue a tradução do texto Birthing Our Selves, Our Children, and Our World, de autoria de Amy Childs, publicado na revista Life learning Magazine (edição Maio/Junho 2006).

Dar a luz a nós mesmos, aos nossos filhos, e ao nosso mundo.

Vivenciar o unschooling pode ser uma jornada solitária, dolorida e turbulenta. Pode parecer estranho ouvir pela primeira vez que criar uma vida baseada em liberdade, confiança e diversão, muitas vezes incluem horas de profunda angústia, vergonha e medo. Ainda assim, a maioria dos unschoolers descreve a transição ao unschooling como um processo difícil, e mesmo unschoolers mais experientes vivem momentos que estão longe de serem fáceis e sem preocupações. Ainda que o unschooling ofereça uma visão de paz e alegria, o esforço necessário para chegar lá, pode, algumas vezes, ser sentido como um peso muito grande para se carregar. O que unschoolers podem fazer para diminuir esses momentos de desconforto que parecem ser parte inerente deste estilo de vida?

A premissa inconsciente sobre seres humanos, expressada em nossas crenças coletivas, é que somos naturalmente maus, preguiçosos e burros. Estas crenças são responsáveis pela visão que a maioria das pessoas tem das crianças, pensando que elas devem ser forçadas a aprender, forçadas a serem produtivas e forçadas a serem boas.

Uma forma de descrever a filosofia do unschooling é “viver como seres humanos já fossem perfeitos”. Este é um conceito radical e, para a maioria de nós, o oposto total do que nós sempre pensamos a respeito de nós mesmos, dos nossos filhos e da humanidade. A premissa inconsciente sobre seres humanos, expressada em nossas crenças coletivas, é que somos naturalmente maus, preguiçosos e burros. Estas crenças são responsáveis pela visão que a maioria das pessoas tem das crianças, pensando que elas devem ser forçadas a aprender, forçadas a serem produtivas e forçadas a serem boas. Alterar este paradigma requer uma mudança profunda na mente de cada um. Deslocar-nos para um lugar de onde possamos confiar e respeitar o íntimo de nossos filhos (sem falar o nosso, e o de todas outras pessoas) é normalmente desconfortável, e frequentemente leva mais tempo que nós gostaríamos para finalmente alcançarmos uma vida pacífica, tranquila e divertida.

Outra forma de descrever o unschooling é: uma exploração continua de quem somos e do que queremos. As famílias que praticam o unschooling querem encontrar as respostas a esta exploração junto ao seus filhos. Porém, a maioria dos adultos não teve a oportunidade de descobrir isto por eles mesmos, e podem não estar familiarizados e confortáveis com o caminho necessário para chegar até elas. Eu imagino que, para pessoas que sempre foram desescolarizadas em um ambiente de amor e apoio, este autoconhecimento e aceitação são fáceis e naturais. Infelizmente, a maioria de nós não teve tal sorte, e passamos muitos anos concentrados em quem não somos, tentando ser “melhores”, sem muita atenção (ou nenhuma) dada ao que realmente queremos ou a quem somos.

Se queremos virar este mundo invertido de volta para o lado correto para nossos filhos, temos que fazê­-lo para nós mesmos ao mesmo tempo. Esta jornada é nossa jornada, nossa e deles. Como adultos e pais, continuar com a intenção de descobrir quem realmente somos e o que verdadeiramente queremos, requer um continuo processo emocional de descobrir a vergonha, medo e condenação que interiorizamos e vivemos por muito tempo. Não admira que a sociedade estacione crianças na escola, protegendo-se de enfrentar essa dura realidade de frente.

A maioria de nós acredita, por mais tempo do que conseguimos lembrar, que somos imperfeitos, que existem coisas que devemos mudar em nós mesmos, e que o objetivo da vida é melhorar. Quando éramos crianças, este programa de “melhora” era quase constantemente reforçado e monitorado por nossos pais, professores, pastores, e outras figuras de autoridade. Quando chegamos a fase adulta, a maioria de nós aceita esta versão da realidade, e se torna especialistas em constantemente julgar a nós mesmos e encontrar defeitos. A maioria das pessoas consegue viver todas suas vidas pensando que elas são fundamentalmente incompletas e defeituosas, e acreditam que devem lutar para que sua vida tenha algum tipo de valor, ainda que isso não seja divertido para ninguém. Dar aos nossos filhos a liberdade e o encorajamento para serem eles mesmos irá iluminar nossa própria falta de liberdade e auto­-aceitação, o que pode nós deixar confusos e incômodos.

É comum interpretar a dor como sinal de alguma coisa está errada. Algumas vezes essa interpretação é útil, como quando alguém põe a mão no fogo. Por outro lado, existe a dor de trabalho de parto que, quando resistida, impede que um processo natural prossiga. Parteiras apoiam e encorajam mulheres em trabalho de parto com suas dores, sabendo que fluir com a dor, em vez de batalhar contra ela, fará a mãe e o bebê passarem pela experiência com mais facilidade. Já que o unschooling é tão raro, nós não temos um conhecimento coletivo de que a maioria dos novos unschoolers vivem incomodados, com muitas dúvidas e medos que tornam a assombrá-­los periodicamente ao longo deste trajeto. Muitos de nós tem que passar por esses períodos de dor sozinhos, sem parteiras* para segurar nossas mãos.
*aqui parteiras tem um pouco o sentido de doulas. As midwives(parteiras) são mulheres que auxiliam outras mulheres em trabalho de parto, mais comuns em países onde o parto é menos medicalizado.

No meu primeiro ano de unschooling, ainda que eu fosse familiar com homeschooling, eu não sabia que uma coisa chamada unschooling existia. Eu estava passando pelo que inicialmente chamei de minha “crise de meia-­idade” (mais tarde, vi as coisas de outro modo e chamei de minha “emergência de meia-­idade”). Diante a tudo que eu estava vivendo, eu decidi que eu e minhas duas filhas (que na época tinham 8 e 10 anos) iríamos tirar um ano da vida como conhecíamos, viveríamos como se fossemos perfeitas, e descobriríamos quem realmente éramos. Nós chamamos isso de “Essential Self-School”. Foi excitante e aterrorizante, e fez aparecer muitos sentimentos difíceis em mim. Já que eu não tinha idéia de que unschooling existia na cabeça de ninguém que não na minha, nunca me ocorreu procurar outros unschoolers para encorajamento, informação e apoio. Eu nem conhecia ninguém que fazia o homeschooling tradicional. Nesta aventura, eu estava sozinha.

Mas, na verdade, não. Eu tinha passado minha vida me cercando, conscientemente, de amigas amorosas e cuidadosas, as quais me acompanham nos altos e baixos da vida. Eu chamo elas de minhas “lollies*” (elas são tão boas quanto doces), e elas me providenciaram uma grande e maravilhosa irmandade. Mesmo que elas não tenham pessoalmente se identificado com o “Essential Self School” que eu estava fazendo, elas me conheciam e me amavam, e sempre apoiaram minha viagem interior em busca de felicidade e paz. Eu pedi a estas mulheres que fossem minhas parteiras.
*lollies em inglês significa “pirulitos” e ao mesmo tempo soa como “leais”

No meu primeiro ano de unschooling, eu senti uma gama enorme de sentimentos árduos:­ medo, tristeza, chateação, constrangimento, vergonha,­ etc. Eu chamava uma das minhas amigas e pedia para que elas me apoiassem (metafórica ou literalmente) enquanto eu chorava. Minhas amigas sabiam que eu estava no caminho certo para mim, e não questionavam minhas decisões ou pedidos de apoio. Elas me escutavam sem julgamento. Elas me lembravam de respirar. Elas mostravam que me amavam. Sua presença me ajudava a estar mais em contato com quem eu era e o que eu queria.

Por meio desse processo bagunçado e imprevisível, muitas coisas mágicas aconteceram, mas o mais notável e excitante foi um surpreendente novo senso de diversão, liberdade e paz para mim e meus filhos. Eventualmente, quando eu estava descrevendo esta aventura a alguém que eu conheci no ônibus, ele me perguntou se nós éramos “unschoolers”. Eu nunca tinha escutado esta palavra antes, mas assim que eu a escutei, sabia que a resposta era sim.

Desde então, tenho visto muitas famílias que praticam o unschooling confirmar esse tipo de liberdade, amor e alegria que eles tem descoberto. Também ouvi muitos unschoolers expressarem inúmeras formas de medo, dúvida, pânico, raiva, julgamento, vergonha, desespero, preocupação e outros sentimentos complexos. Agora, eu vejo isso como uma parte inevitável do desenvolvimento. Quando “se tornar um unschooler” é compreendido como “reavaliar tudo que você achava significar estar vivo,” fica mais fácil entender porque o que sentimos é, as vezes, tão impossível e opressor. Já que nós estamos na minoria, podemos fácil e frequentemente ter dúvidas sobre a sabedoria de confiar em seres humanos. Não apenas nos faltam modelos e sistemas de apoio, como nós podemos também acabar sendo os azarados recipientes do medo e julgamento de outras pessoas. Qualquer que seja nosso pensamento negativo, existe sempre alguém que está mais do que feliz em validar e dar voz a eles. Para muitos unschoolers isso torna o caminho ainda mais dolorido e isolante.

Assim como um nascimento, existem muitas coisas que podemos aprender sobre unschooling:­ novas idéias, sugestões práticas, filosofias históricas, e assim vai. Toda essa informação intelectual pode ajudar muito. Mas quando a dor verdadeira de parto aparece, os “fatos” são de pouca ajuda quando comparados à parteira que nos olha nos olhos, limpa nossa testa, segura nossa mão, e nos guia a estar conscientes com a dor. As habilidades que ganhamos quando parimos nossos filhos podem ser usadas quando parimos espiritualmente o nosso eu­-interior e o de nossos filhos. Quando precisamos, podemos segurar a mão de nossas parteiras, chorar nossas lágrimas e lembrar de respirar.

Ter tempo para respirar é fundamental como prática regular e medida de emergência. A respiração consciente nós traz alívio imediato físico e emocional. A partir deste lugar calmo e centrado, podemos nos reconectar novamente com nosso eu-­interior e nossos desejos profundos. Deste lugar podemos lembrar da perfeição nossa e de nossos filhos, não importa quão confusas e bagunçadas as outras circunstâncias pareçam estar.

Assim como ter me treinado a respirar mais conscientemente e liberar minha própria dor emocional, também achei útil me premiar, mimando-­me nas coisas que me davam prazer: uma soneca, um banho, um lanchinho favorito, yoga, ou sentar-me um pouco ao sol. Enquanto me tratei com amor e compaixão abundantes, me tornei melhor em confiar em meus filhos e tratá-­los da mesma forma. Seguindo meu coração e relaxando, eu criei um ambiente no qual era seguro para meus filhos se tornassem quem eles realmente eram.

Este processo geralmente não acontece naturalmente, pois a maioria de nós está acostumada a pensar que nossos desejos e prazeres são suspeitos. Assim como uma criança que está passando por um processo de deschooling pode alternar entre empanturrar­-se ou recursar algumas comidas e atividades, pais que estão deschooling normalmente descobrem que seus próprios instintos naturais foram muito danificados. Nós podemos não saber como nos mimar, podemos não saber o que realmente queremos.

Leva tempo. Dar a nós mesmos espaço para tropeçar, ajudará a lembrar que nossos filhos também precisam de tempo e espaço para tropeçar, e que podemos diminuir o desconforto aumentando a nossa satisfação e a deles o máximo possível ao longo desta trajetória..

Mais importante: sempre que você puder, ache pessoas para estar com você neste caminho. Considere falar com um terapeuta, um conselheiro, um coach que também está numa contínua jornada pessoal de cura, e que é confortável com o enfoque que uma vida no unschooling representa. Algumas técnicas e práticas de aconselhamentos com colegas (por exemplo “Re­evaluation counseling”, e outros) podem ser formas maravilhosas e baratas de aprender a se tornar fluentes com emoções difíceis, e podem te ajudar a construir uma rede de apoio e compaixão. Encontre pessoas que acreditem em você:­ amigos, irmãos, parentes, ou outros pais que praticam unschooling. Diga a eles seu desejo de desescolarizar, e peça a eles que te apoiem com as dificuldades . Não temos parteiras oficiais de unschooling, então precisamos treinar nosso time de apoio nós mesmas. Avise a eles que o unschooling pode parecer difícil, mas que isso, assim como o nascimento de um filho, é esperado. Não significa que você fez escolhas erradas. Simplesmente significa que você pegou um projeto muito grande, que vai demorar um tempo e que vai envolver alguma dor.

Não podemos confiar nos outros plenamente se não confiarmos em nós mesmos. O processo de aprender a confiar em nós mesmos é uma estrada longa e turbulenta, e aqueles que escolhem atravessá-­la precisam de amor e cuidado pelo percurso. Esta delicadeza não apenas suaviza a passagem para o unschooling, como também leva todos mais longe em direção a um planeta mais feliz e em paz. Um mundo que honra, respeita e acredita em pessoas de todas as idades seria um mundo onde vale a pena viver, e eu apreciaria profundamente aqueles que estão dispostos a enfrentar a dor e a incerteza necessárias para parí-lo.

Amy Childs

 

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