Quem pode desescolarizar?

Este post é a tradução do podcast número 3 do The Unschooling Life que chama “Quem pode desescolarizar?”

 

Muitas coisas neste episódio podem soar estranhas, e a primeira vista erradas, ou podem simplesmente fazer você leitor sentir muita raiva. Raiva de mim por ter traduzido essas “besteiras” e das pessoas que disseram elas primeiramente em inglês.

 

Antes de você seguir lendo a tradução eu tenho 3 pontos que gostaria de levantar e uma historinha. Depois disso a tradução:

 

1) Eu estou traduzindo mais dois textos inteiros falando sobre as emoções difíceis que desescolarizar pode trazer.

Talvez, de certa forma, este seja um tema que toca fundo em mim, e por isso eu preciso falar tanto dele.

Eu lembro muito bem da primeira vez que escutei que deveríamos confiar nas crianças, a raiva que isso me causou. A cena está gravada na minha mente com raio laser. Eu estava no meu quarto, na terceira casa em que moramos em Londres pendurando roupas. Eu sempre tentei fazer atividades chatas escutando meus podcasts, e quando eu escutei que deveriamos confiar nas crianças, parei de ouvir o programa, parei de pendurar as roupas e fiquei bufando pensando quem era essa louca que tinha dito isso e o que ela sabia das coisas da vida?!?!

 

Fiquei com raiva durante tanto tempo e com tamanha intensidade que resolvi que deveria tentar descobrir o porquê disso. Foi a partir dai que eu comecei uma jornada de auto-conhecimento mais intensa. Coincidentemente essa também foi a época que eu estava mais deprimida, então acho que cheguei no ponto em que ou ia ou rachava.

 

2) Acho que uma das coisas que não é falada neste podcast sobre quem pode desescolarizar, e quem não, é o fator SORTE. Porque pra mim, um dos grandes motivos porque as pessoas não trazem seus filhos da escola pra casa é que elas não tem a sorte de poder arcar com os custos de ficar em casa com seus filhos.

 

A escola como babá  porque os dois pais tem que ir trabalhar.

Eu não estou falando aqui de pessoas que não querem diminuir seu padrão de vida, cortando um dos salários, e continuarem conseguindo ter uma vida simples, boa e ainda assim muito rica, e escolhendo ficar em casa com seus filhos. Estou falando da impossibilidade de um dos pais pararem de trabalhar porque se fizerem, vai faltar comida mesmo.

 

No nosso caso, nós conscientemente escolhemos viver padrão de vida menos rico do que estávamos acostumados e fizemos outras escolhas que no nosso ponto de vista eram mais importantes.

 

3) Neste post Sandra Dodd fala sobre usar o universo inteiro como panorama do aprendizado e amarrar nosso aprendizado com o de nossos filhos. Também é falado do papel dos pais, ao invés de professores, como de co-exploradores e aprendizes junto com os filhos. Muitas vezes nós vivemos aqui em casa situações que são o exemplo disso.

 

Para ilustrar uma pequena história:

 

Recentemente eu comprei pra Alice um livro sobre mitologia. O livro é muito engraçado. Ele mostra os deuses tendo diálogos como se eles estivessem em um chat na internet. No dia que o livro chegou, ela nem se interessou muito. Meses se passaram até que ela pegou o livro e começou a ler. Dai ela veio me contar uma história de que Hades tinha sequestrado Persefones para o Underworld e sua mãe Demetri ficou tão triste que congelou o mundo todo! Lendo junto com ela, eu fui perceber que este relacionamento dos deuses funcionava para explicar as estações do ano.

 

Como acontece as vezes, eu me empolguei mais do que a menina, mas pra não afogar o interesse dela com minha empolgação, eu resolvi procurar uns vídeos sobre os deuses do olimpo, e achei uma série animada sobre os deuses gregos. Ela curtiu a série também e por mais de uma semana, nós duas descobrimos um monte de coisas sobre os deuses do Olimpo que eu nem lembro de ter estudado na escola.

 

Na verdade, eu lembro apenas de achar esse assunto insuportavelmente chato. Na época devo ter decorado os nomes dos deuses e seus equivalentes nos deuses romanos para passar algum teste. Não lembro de ter ficado interessada ou ser apresentada aos deuses como personalidades malucas que tinham relacionamentos tão disfuncionais. Vocês sabiam que Cronus comia seus bebês?

 

Enfim, além de nós duas termos aprendido um monte sobre os deuses gregos, ainda tivemos conversas super profundas sobre crenças, deuses, mitologias de outros povos, e como as pessoas gostavam de inventar histórias pra explicar coisas que a ciência ainda não conseguia explicar.

 

Por causa disso, agora a gente tem uma lista enorme de assuntos que queremos pesquisar juntas, e cada vez que pesquisamos sobre alguma coisa, acabamos descobrindo muitas outras que achamos interessante e PRECISAMOS descobrir mais!

É realmente um universo interminável de exploração!

 

Agora a tradução:

 

Quem pode desescolarizar?

Amy: A desescolarização é para todo mundo?

Eu acho que toda criança prosperaria em um ambiente amoroso, interessante, divertido, rico em recursos, estimulante e de qualidade. Ou seja, qualquer criança, eu acho, seria uma ótima unschooler se seus pais estivessem fazendo seu trabalho direito.

Então a pergunta de hoje é: O que pais que desescolarizam precisam fazer, para fazer seu trabalho direito?

Esta é Amy childs e bem vindos ao Unschooling Life.

Então, quem deveria ou não deveria desescolarizar?

Primeiro vamos perguntar a Sandra Dodd.

 

Sandra Dodd: Algumas vezes as pessoas dizem: “qualquer um pode desescolarizar”.

Eu sempre tremo quando eles dizem isso.

Porque o mesmo tipo de pessoa que escreve, ou diz, este tipo de coisa em público, tende a não ser a pessoa que vai ficar por perto e ajudar as pessoas a realizarem isso.

Dizer isso soa bem, é alegre, abrangente, e errado.

 

Amy: Onde você acha que não funciona?

Sandra Dodd: Se os pais não estão dispostos a mudar, não vai funcionar. Se os pais querem tentar, ao invés de fazer, não vai funcionar.

Eu quero dizer, as pessoas tem que tentar, mas elas tem que tentar com a esperança e a intenção de fazer funcionar. Não tentar de uma forma na qual eles na verdade tinham a intenção de provar que era estúpido e que não funcionaria.

 

Amy: Ou tentar e ver se a criança prova a eles que funciona.

Sandra Dodd: Sim, sim. “Bem nós deixamos ele em paz por um ano e ele não fez nada…”.

Ele provavelmente fez muitas coisas inclusive pensar porque a sua mãe o deixava sozinho. Algumas vezes as pessoas dizem, quando elas pensam que é muito fácil, elas dizem: “Eu vou fazer isso”. Eu eu me tornei muito sensível a palavra .

Eu fui criticada por usar Só adicione luz e mexa*. Bem, este é outro . Este significa que tudo que vc deve fazer.

*Nome do blog que Sandra Dodd tem. Just add light and stir.

 

Mas quando você diz “Oh, eles estavam brincando”, ou “Eu estava fazendo uma piada” este é o tipo de palavra que reverte algo. Faz ser menor, faz ser trivial. Alguém diz: “Só faça isso”, e eles querem dizer “Oh, só deixe as crianças brincarem”, “Só fique em casa com eles”, “Só…”

Não, você não pode fazer isso. Você precisa fazer de coração, inteira e intensivamente. Fazer pra valer.

Se você estiver apenas parcialmente, mais ou menos, só fazendo isso, não vai funcionar. E o isso é: fazendo o tipo de relacionamento com seu filho que envolve todos tipos de conexão, e respostas a perguntas, e explorações que eles vão precisar para ter noção de todos os aspectos, não apenas das coisas que eles ensinam nas escolas, mas outras coisas.

Para que no curso desta vida valiosa com seus filhos, os pais estejam confiantes no aprendizado e seus recursos. E a criança esteja confiante no interesse dos seus pais, no conhecimento dos seus pais e na presença de seus pais. E quando estas coisas estão sólidas, o aprendizado não pára.

Os pais também começam a ver e a valorizar o aprendizado que eles estão fazendo. E se o filho faz uma pergunta que eles não sabem a resposta, isto não é um problema.

Ao invés de ficar com vergonha, eles vão dizer: “Esta é uma boa pergunta!”

É mais interessante quando alguém me faz uma pergunta para a qual eu não sei a resposta.

Se eu já sei a resposta e é uma resposta fácil, dai nao é um bom uso do meu tempo.

Se todas as manhãs alguém me ligasse e dissesse: Quanto é 4×2?

E eu dissesse: 8.

E eles dissessem: Ok, muito obrigada, estou tão feliz que você sabia.

Eu estaria tentada a dizer: conte nos seus dedos ou pegue uma calculadora.

Mas crianças descobrem essas coisas. Quando eles descobrirem sozinhos que eles podem contar nos dedos ou pegarem uma calculadora, que isto nao é um teste, que se eles precisarem saber eles podem descobrir como, ou se eles quiserem saber, a mãe deles pode dizer a resposta…

Então, quando tudo isto se torna pressurizado… pressurizado não é a palavra certa. Sabe uma bomba manual? Quando você tem uma bomba manual e os primeiros bombeamentos não trazem a água? O que você está fazendo é incentivando a bomba, você está colocando a pressão ali. Quando o fluxo de água começar a sair, ele sai forte e sai cheio.

E é assim, quando você supera a fase de deschooling e todas as mudanças graduais de relacionamento que precisam ser feitas para chegar neste ponto, dai tudo começa a realmente fluir.

E então eu penso que quando alguém fala: “só faça isso”, eles estão apenas empurrando o cabo da bomba para baixo uma vez e dizem: “Nossa, não tem nenhuma água?” E eles fazem de novo, e talvez mais três vezes… “Eu tentei de verdade desescolarizar, mas não funcionou.” Mas se eles estiverem perto de outros unschoolers e perguntarem: “Ok, o que eu preciso fazer?” e eles realmente querem fazer, e eles realmente querem mudar seus pensamentos e reações… vai começar a fluir.

E uma vez que começasse a fluir, você não conseguiria fazer com que ele parasse, você não iria querer que ele parasse. Por que você quereria? Você não pode.

Uma vez que os pais saibam que seu aprendizado está amarrado ao aprendizado de seus filhos, e que eles podem todos aprender juntos, euma vez que eles comecem a fazer estas conexões, as conexões que eles estão fazendo hoje serão coisas que foram levantadas 1 ano, 5 anos atrás. (Um pedaço sobre um brinquedo e um conceito de física que eu não consegui entender muito bem não foi traduzido, mas essencialmente Sandra estava dizendo que as crianças podem entender um conceito de física depois de algum tempo lembrando de um brinquedo de infancia)

Então, quando estas conexões começam a ser horizontais ao longo de toda vida e através de todo universo, e não verticalmente como na escola. Por exemplo, isto é o que alunos de sétima série aprendem no segundo semestre, então é como uma coluna de aprendizado da onde você ira para o primeiro semestre da oitava série. Quando você desfaz este modelo e começa a usar o universo inteiro como panorama para seu currículo, não tem volta.

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Sandra Dodd: Eu fui criticada algumas vezes por outros unschoolers por ser tão contra-divórcio. Algumas vezes as pessoas são imprudentes quando elas começam a desescolarização. Elas parecem pensar que é uma coisa na qual você pode se registrar, como uma religião, ou que você pode comprar como uma enciclopédia. E que quando você tem ela, você tem ela. Mas a desescolarização é algo que deve ser construída gradualmente dentro da família.

Então, quando algumas pessoas brigam com seus esposos sobre isto, pode acontecer um divórcio, que em consequencia traz nenhuma chance de desescolarização. E isso estressa as crianças para sempre. Então, eu não sou a favor de desescolarizar acima do casamento

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Sandra Dodd: Quando as pessoas querem controlar seus filhos é porque, muitas vezes, elas tem uma crença quase mágica que, por meio do controle e sacrifício de alguma coisa, eles podem garantir a segurança, curiosidade e inocência de seus filhos. E se a coisa que eles sacrificam é uma galinha, isto é vodu. Se a coisa que eles sacrificam é a televisão, isto é vodu moderno.

E que se eles limitarem o acesso da criança ao mundo moderno, às coisas normais ordinárias, eles podem de alguma forma garantir criatividade, e não funciona assim.

Sempre existirão pais que estão encantados porque seus filhos sairam no quintal e cavaram na terra com seus palitos.

E eles dizem: “Viu, viu só que criativo?”.

Eu já brinquei com terra e palitos quando era criança, mas eu nunca aprendi tanto, não importa qual terra e qual palito, como eu aprendi assistindo um programa de tv, ou olhando um livro de imagens, ou conversando com pessoas, ou lendo revistas.

Mas se eles estão sentados lá fora, brincando na terra com um palito, e a mãe deles está bem ali com eles, e ela está conversando sobre outras coisas, isso pode ser muito valioso. Se a criança está cavando na terra com um palito porque esta é a melhor coisa que ele pode fazer na vida dele, não tem nada mais interessante em casa ou no quintal, esta criança deveria ir a escola.

Qualquer pai que não estiver interessado, ou não estiver disposto, ou não puder fazer o ambiente de desescolarização melhor do que a escola, não deveria fazer a desescolarização. Eles devem querer o melhor para seus filhos. E crianças precisam de pessoas, idéias, informações, adultos bons em suas vidas. E se eles podem ter isso mais fácil e rapidamente na escola, então a escola é boa. Apenas as pessoas que podem fazer melhor que a escola, deveriam desescolarizar, eu acho.

 

Amy: Está é Alyssa, que sempre foi desescolarizada.

Alyssa: Bem, minha mãe realmente deixava a gente explorar.

Nós podiamos ir até ela e dizer: “O que é isso?”

E ela responderia: “Eu não sei, vamos a biblioteca”.

A maioria das pessoas pensam “Oh meu Deus, como seus pais aprenderam isso? e ensinaram a você?”

E na verdade, não, não, não, não. Minha mãe e meu pai era recursos. E isso que é tão maravilhoso sobre eles.

Não haviam limites no que eu poderia e no que eu queria aprender.

Eu não sabia que havia o “você deve aprender isto e você deve aprender aquilo”.

Eles deixavam a gente explorar de verdade. E eles deixavam a gente sentar do lado de fora, aproveitar as coisas naturais, e nos deixavam ter nossas dúvidas.

Era sempre “Vamos descobrir!” sabe? Isso era ótimo.

 

Amy: E aqui estão Jan e Julie.

Jan: Eu acho que flexibilidade é provavelmente uma das coisas. Eu descobri pela minha própria experiencia que provavelmente veio de um ponto de vista menos flexível do que a Julie. Provavelmente menos flexível do que ela intelectualmente, mas certamente menos flexível emocionalmente.

Eu sempre estive altamente investido em saber tudo, e saber todas as respostas corretas. Eu acho que me afastar disso, de ser o provedor das respostas corretas para alguém que apenas fala sobre coisas e o ajuda a descobrir quais são as respostas corretas.

A parte de descobrir é um aspecto mais importante do que você já saber.

 

Julie: Se os pais se importam muito com as respostas corretas fica muito fácil entrar em modo professor e começar a instruir ao invés de apenas deixar a conversa fluir naturalmente.

Eu acho que esta é a chave se você for desescolarizar com sucesso: você deve parar, se tiver começado, você deve parar de ver você mesmo como professor, porque você não é, você é um facilitador, um co-explorador, um co-aprendiz.

 

E eu acho que muito do que faz alguém ser um bom pai que desescolariza é ser curioso sobre o mundo, sobre o que está acontecendo ao redor deles. E disposto a olhar a coisas interessantes e ver coisas interessantes em todos os lugares, e ajudar a criança a ver coisas interessantes em todas as partes.

 

Amy: Então quem não deveria desescolarizar?

Pais que não querem deixar de lado suas antigas crenças a respeito do aprendizado, ou que não querem aprender como deixar de lado estas crenças.

Pessoas que não confiam em seus filhos, ou que não querem aprender a confiar em seus filhos.

Pais que se sentem facilmente sobrecarregados, ou que ficam irritados facilmente, e que estão dispostos a culpar seus filhos por seus sentimentos, ou que assumem que seus filhos são responsáveis por sua sobrecarga e infelicidade.

Pais que não querem passar tempo com seus filhos, ou que não podem passar tempo com seus filhos, ou que não podem arcar com o custo de ficar em casa com seus filhos.

Pais e pessoas que não são curiosos sobre o mundo, ou que não são entusiasmados sobre o mundo e entusiasmados em dividir o mundo com seus filhos.

Ou pessoas que tem medo do mundo, medo de aprender, medo de crescer, medo de novas idéias.

Pessoas que não gostam de fazer perguntas, pessoas que estão muito presas a suas próprias noções pré-concebidas.

 

Outra categoria é a de pessoas que não querem encarar tipos de sentimentos frustrantes e desagradáveis que surgem quando você se der conta que muitas das formas como você foi tratado com criança estavam erradas.

Que muitas das coisas que você sofreu quando criança foram injustas e simplesmente tentar se reconciliar com isso.

Você foi tratado pior que seus filhos, e você está empenhado em dar-lhes algo melhor do que o que você teve.

 

E a última categoria que eu acrescentaria: pessoas que não sabem se divertir.

Infelizmente existem muitas pessoas que simplesmente não sabem como se divertir, e eu não tenho certeza de que eles deveriam desescolarizar.

Eu acho que primeiro eles deveriam aprender a se divertir antes de trazer seus filhos da escola para casa. Se você não sabe se divertir então provalvemente não vai funcionar para ninguém.

 

Então, basicamente, a desescolarização funciona para famílias nas quais os pais estão empenhados em fazer absolutamente tudo que eles puderem para fornecer um ambiente saudável, interessante e de qualidade para seus filhos. E neste ambiente, seu filho não vai ser capaz de fazer outra coisa que não aprender.

 

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The Unschooling Life Podcast is brough to you by Amy Child and unschoolingsupport.com

 

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Comments

  1. Excelente texto!!! Estou adorando seu blog! Tenho um filho de um ano e meio e estou começando a construir nosso ambiente de pesquisas e descobertas em casa. Morando no Brasil, tenho medo de assumir o homeschooling. Também não conto com o apoio absoluto de meu marido. Neste caso, estudo as possibilidades rsrs Parabéns!!!

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