Como NÃO viajar de bicicleta.

Era meia-noite e vinte da madrugada do dia da nossa viagem pra Alemanha. Eu estava conversando com minha amiga Emma quando o Rodrigo me avisou que a fita tinha acabado.

A fita em questão era uma fita isolante que a gente estava usando pra fechar as caixas das bikes. Caixas improvisadas que arrumamos também, claro, de última hora. Bom tópico pra post alias, como NÃO EMPACOTAR sua bicicleta para uma viagem.

Nossa sorte é que estávamos em Londres, a cidade onde supermercados Tesco 24 horas ficam sempre há apenas alguns minutos da sua casa. Ou, no nosso caso, da casa dos seus amigos gente boa (valeu Emma e Bidesh!) que te recebem depois que sua família vira nômade.

Fita comprada, bicicletas empacotadas, chamamos um táxi que, por pura casualidade, era um carro no qual cabiam nossas caixas enormes, ufa! Fomos pro aeroporto.

Viajar é sempre com emoção pra gente, por isso, no momento da verdade, na balança das bagagens, logicamente um dos pacote de bicicletas estava com muito mais peso do que era permitido.

— Interrompemos esse texto para falar que eu já estou ficando sem sinônimos pra palavra “sorte” sem que soe muito artificial. —-

O acaso, e o fato que nós saimos com muita antecedência pro aeroporto, permitiu uma operação frankenstein com as caixas fosse realizada ali mesmo no check-in. Socamos o peso extra numa das bolsas da bike que antes estava dentro de uma das caixas e essa bolsa virou a bagagem de mão da Alice.

O Ro ainda tentou brincar com o atendente da Easyjet falando “Isso deve acontecer o tempo todo, né?” No que ele sorriu e respondeu que “Na verdade, não.”

Fim do capítulo 1.

Capítulo 2: Alemanha!

O Albertino (mais querido do planeta, o mesmo Albert que foi com a gente na primeira viagem) veio nos receber no aeroporto e, com seu alemão fluente (sem o qual nós não teríamos sobrevivido), nos ajudou a achar um táxi no qual coubessem nossas lindas e inconvenientes bicicletas.

Chegamos na casa deles e planejamos a nossa pedalada de Berlim pra Leipzig minuciosamente (insira uma boa dose de ironia aqui).

Rolou uma mistura de procrastinação com falta de humildade. Achavámos que por já ter feito uma viagem de bike antes que foi muito tranquila, essa seria do mesmo jeito. Um exemplo disso foi que quando o Albert Corredor de Maratonas Steinberg perguntou quantos kilometros nós conseguiamos fazer por dia, eu muito modestamente, respondi: 60km.

Vamos revisar? Primeira viagem de bike, destino: Holanda. Holanda! País pequeno, famoso por ter ciclovia EM TODOS OS LUGARES, e ser inteiramente PLANO. O único detalhe é que a Alemanha não é a Holanda!

Além de estar totalmente iludida geograficamente, enquanto o Ro e o Albert discutiam o percurso no google maps, eu brincava de quebra-cabeça com a Alice… Imaginava que os meninos estavam sensívelmente escolhendo as melhores rotas possíveis para todos nós. Provavelmente essa era mesmo a intenção…

Ok, domingo de manhã, estávamos todos felizes e prontos pra partir, como demonstrado na foto abaixo:

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Dai, um minuto antes de sairmos, uma pecinha do banco da minha bike quebra… Isso não seria um problema se o dia da semana que escolhemos para ir não fosse domingo. Sim, domingo! O famoso dia em que loja nenhuma abre em Berlim!

O bom é que quem viaja pelo mundo de bike tem nas células do corpo um filamento de DNA dedicado a lidar com improvisos (isso é a mais pura verdade, um dia a ciência vai comprovar)! Por isso conseguimos fazer uns remendos e… estávamos prontos para partir de novo! EEEE!

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Berlim é demais pra pedalar! No verão, da impressão que todo mundo da cidade tá de bike. Jovens, idosos, crianças.

Como recém ex-moradores de Londres, e tendo passado pelo paraíso das bikes, também conhecido como Países Baixos, nós demos 4,5 estrelinhas de rating pra Berlim no quesito trânsito respeitoso, e quantidade de ciclovias na cidade.

Saímos de Berlim e entramos quase que instantaneamente numa super reserva natural, com enormes campos de girassóis, caminhos lindos pela frente, as Quatro Estações de Vivaldi tocando na trilha sonora da minha cabeça… Que bela a vida! Mas ops, quem colocou essa trilha de mountain bike por aqui?

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Sim uma trilha para a qual minha bike híbrida (a única do grupo sem amortecedor no guidão) e meus ombros não estavam preparados… Mesmo assim, encaramos bem a britadeira de 6 km. Aliás 6 km muito mais cansativos do que 30km em qualquer interior da onde? Da Holanda, claro!

Chegamos no acampamento de noite… Uma das desvantagens de pedalar muito mais do que devíamos era chegar tarde nos campings e não conseguir aproveitar muito os lugares. Mas como era verão, restavam ainda algumas horinhas de sol. Deu até pra Alice dar um pulo no lago as 9pm antes da janta e dos mosquitos começarem a jantar a gente.

Saldo do primeiro dia, ombros detonados, visual maravilhoso, e pelo menos 20 km a mais do que os 60 previamente combinados. Tudo devidamente convertido em um consumo maior de chocolate porque é importante ter equilíbrio na vida, né não?

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Mergulho no lago do camping as 9 pm.

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Ganhamos foto no site do camping, eles nunca receberam hóspedes brasileiros antes. 🙂

Segundo  dia, eu acordo ainda bem cansada do primeiro, mas vamos lá.

Mais caminho errado, mais google maps nos jogando pras auto-estradas da Alemanha, não aquelas sem limite de velocidade, mesmo assim com caminhões passando a 80km/h do nosso lado…

Em compensação mais super visuais, mais florestinhas que parecem ter saido de contos de fada e mais conversas super profundas sobre últimos suspiros e a razão de viver com o Albert.

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Várias pausas para lanchinhos

O segundo camping que fomos era lindo, lindo. Ou então foi tudo um sonho e a gente dormiu na beira da estrada mesmo. Não dá pra saber porque a gente tava tão moído que tudo que deu tempo de fazer foi montar a barraca e dormir.

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Terceiro dia, eu tava podre, mas tava viva.

Depois de morar 5 anos sem carro, meu corpo e a bike criaram uma relação simbiótica na qual nós virávamos uma coisa só e eu consigo continuar pedalando sem meu cérebro perceber o que minhas pernas estão fazendo lá embaixo.

Uma visão de túnel se apoderou dos meus olhos e nem se o Michael Jackson banhado a ouro aparecesse mijando num rio de chocolate (agradeçam ao Rodrigo Mattioli por essa idéia de imagem) eu prestaria atenção na paisagem. Meu único objetivo era: CHEGAR EM LEIPZIG!

Neste dia eu estava imprópria para o consumo humano. Desculpa ae, companheiros de viagem!

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Moinho na Alemanha. Lógico que eu tomei essa visão como uma ofensa pessoa já que o moinho me lembrava a Holanda, local onde eu não precisava consultar o google maps pra me perder.

Uma chuva prevista no meio do caminho fez a gente decidir que pegaríamos o trem até Leipzig. Vimos mais ou menos onde ficava a estação e fomos.

Provavelmente o sangue que deveria estar indo pro nosso cérebro foi todo para as nossas pernas, essa é a única explicação que eu tenho pra gente ter nos perdido MAIS UMA VEZ.

A gente tava perdido mas a chuva nos achou com tudo. E a verdade é que poderia ter sido pior… Por exemplo, se a gente não tivesse achado a parada de ônibus COBERTA no vilarejo de 50 habitantes que estava no caminho errado que pegamos.

Circulado em vermelho o ponto de ônibus que nos acolheu bravamente neste momento de desespero.

Circulado em vermelho o ponto de ônibus que nos acolheu bravamente neste momento de desespero.

Um dos únicos arrependimentos dessa viagem (sim porque apesar de ter sido mal planejada, a gente não se arrepende nem um pouco de ter ido) foi não ter filmado o dilúvio que tava caindo lá fora…

Depois de uns 5 minutos vendo a chuva cair, nos quais eu rapidamente saquei o iPad da bolsa pra distrair a Alice do fato que ela estava molhada e cansada (fica a dica), chegaram mais dois viajantes na parada de ônibus.

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Rolou uma troca de conversa em alemão entre os dois sujeitos e o poliglota Albert. Depois da tecla SAP ser ativada, descobrimos que alguns amigos dos viajantes estavam a caminho da paradinha de ônibus.

Como é bom ter amigos nos momentos de aperto! Porém, ou nos entendemos errado a tradução, ou a cultura alemã. Assim que o carro (lotado de marmanjos e sem espaço para um possível resgate) chegou, dele saiu DANÇANDO NA CHUVA, um magrelo cabeludo, só de shortinho. Essa cena definitivamente me curou da visão de túnel.

Palavras incompreensíveis foram trocadas entre eles por muito mais minutos do que qualquer pessoa, mesmo as não normais que eu conheço, ficariam batendo papo na chuva. Finalmente eles resolveram ir embora, levaram os amigos não sei como dentro do carro, e  arrumaram pra gente um telefone de um taxi que eu e a Alice pegaríamos pra chegar na casa do nosso amigo em Leipzig.

Os meninos deixaram minha bike presa em algum lugar por lá e bravamente terminaram todo o percurso.

No dia seguinte o Albert foi correndo (!!!!) pegar minha bike. Sério, OBRIGADA MESMO Albert!

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Rodrigo brincando de light painting.

Depois de dois dias em Leipzig pegamos o trem de volta pra Berlim.

Nessas horas a gente percebe o tanto que é legal viajar de bike…

Todas as aventuras daqueles 3 dias e 180km, as pessoas que conhecemos, os campos de girassol, os caminhos errados…Tudo aquilo virou 1h30 de paisagens borradas na janela do trem.

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Moral da história: Viajar de bike é legal mesmo quando muitas coisas dão errado! Mas sério, não confiem no google maps!

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Comments

  1. Pingback: Os lugares onde dormi em 2013. | Casei & Comprei Uma Bicicleta

  2. nossa, que legal! nuuunca pensei em viajar de bike, na verdade nunca tive uma xP (e sim, eu tive infancia mesmo não tendo bicicleta xD).
    mas só de ir curtindo os lugares já vale muito a pena! bem melhor que os borrões do trem mesmo.
    o que tenho usado bastante em viagens é o app waze.. realmente não dá pra confiar muito no google maps..
    boa sorte aí com tudo!

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