Empacotando 3 vidas

Escrevi isso alguns dias antes da gente se mudar de Londres e decidi publicar só agora. Tudo que eu falo ai, agora já faz parte do nosso recente passado.

Eu costumo dizer que a expectativa anda de mão dadas com a decepção. Mas a verdade é que, nos últimos meses, desde que devolvemos nosso apartamento em Londres e começamos nossa vida nômade, quase tudo que aconteceu superou muito qualquer expectativas que eu tenha, mesmo sem querer, criado.

Vou fazer posts separados de como foi nossa rotina na fazenda e nossa viagem pra Berlim mais tarde. Nesse post aqui eu estou falando como foi o processo de decisão que acabou levando a gente a morar um mês numa fazenda. Pra quem tem curiosidade de como foi que a gente foi parar lá, esse é pra vocês!

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01 junho de 2013.

Acabei de comprar nossas passagens pra Durham!

Mas e dai? O que tem em Durham? Um super parquinho? Talvez. Um lugar divertido? Quem sabe… Mas então, porque vc tá contando isso aqui Verônica? Volta a fita e senta que lá vem história…

Em fevereiro desse ano (2013) eu e o Ro estavamos tendo altas conversas sobre o que faríamos das nossas preciosas vidas no futuro. Algumas coisas a gente já sabia: 1) Estávamos bem cansados da vida de cidade grande; 2) Queriamos mais contato com a natureza; 3) Queríamos experimentar ter uma vida mais simples.

Depois de 5 anos morando em Londres, a gente fez e desfez, testou, aprovou e desaprovou várias idéias do que seria viver uma vida feliz.

Saímos de Brasília em 2008. Dois carros, babá, faxineira, emprego, família. Vida boa, né? Era. Viemos pra Londres. 0 carros, 0 babás, 0 faxineiras, 1 emprego e nossa família reduzida ao nosso pequeno tripé. Fora a mudança de continente, também nos mudamos dentro da cidade durante esse período 5 vezes (abraço pra todo mundo que já fez mudanças com filhos pequenos, tamos juntos!)!

Nessas mudanças uma das coisas que observamos todas as vezes foi o fato de que a gente acumulava muita coisa a toa. Toda vez que eu colocava nossas tralhas em caixas, eu me perguntava, “eu quero mesmo carregar isso pra outro lugar?” Se desfazer de coisas e encarar o fato de que compramos, ganhamos e guardamos coisas desnecessárias, não é fácil, mas depois que você começa fica difícil parar.

O espaço que se abriu em nossas vidas depois que começamos a tentar viver com menos, nos ajudou a perceber muitas coisas… Acho que a mais importante delas foi algo muito simples, muito óbvio, mas que acabava ficando ali meio esquecido em meio a tanta tralha (física e mental): a gente queria mesmo era estar juntos, e o resto era o resto.

Ok, prioridades na vida: check!

Destino das coisas: doamos ou vendemos a maioria das coisas grandes. Mantivemos 5 caixas que deixamos espalhadas nas casas de amigos queridos em Londres, 4 malas com TUDO que temos de roupas e sapatos (das quais duas vão ficar no Brasil) e nossas amadas bicicletas (duas mais o weehoo da Alice).

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Além de dar tchau pra coisas, a gente teve que dar tchau pra muita gente querida. Esse bolo lindo foi feito por uma amiga nossa pra uma das nossas despedidas de Londres.

Destino das pessoas: Bom, ai que entra a passagem pra Durham lá do começo desse post! Foi pesquisando a maravilhosa e sensacional internet, com o intuito de “Pra onde a gente vai agora?”  que a gente descobriu o WWOOF! E ai a gente ficou MUITO FELIZ por motivos que você vai entender rapidamente (ou talvez você nunca vai entender como isso pode deixar alguém feliz e provavelmente esse post não é pra você).

WWOOF de acordo com o site do www.wwoof.net é (livre tradução) “Trabalhadores voluntários em fazendas orgânicas”. Ou seja, existem fazendas ao redor do mundo inteiro onde, em troca de trabalho (no caso, o nosso) eles dão acomodação, alimentação e ainda muita troca de conhecimentos em áreas como permacultura, eco-building, etc.

Falando em termos bem simples, o WWOOF funciona mais ou menos assim: Você visita o website do país que tem interesse em fazer WWOOF (são quase 60 países que mantem seus WWOOFs independentes e mais uma lista com 50 países agrupada no WWOOF Independents). Depois de escolhido o país, você preenche o cadastro para se tornar membro e paga uma taxa pela lista (honestos £20 pra um membro e £30 para dois no WWOOF do Reino Unido). Tendo feito isso, você terá acesso a uma lista de fazendas participantes.

Dai você passa um tempo escolhendo quais lugares seriam interessantes para você. Na descrição das fazendas, as pessoas já contam alguns detalhes como o tipo de trabalho que elas esperam dos voluntários, quantas horas por dia, rotina e como funciona o esquema das refeições. Além disso, os sites dos diversos WWOOF te dão várias dicas de como contactar as fazendas, e quais medidas você deve tomar antes de ir. Vale a pena ler com atenção.

Bom, fiz nosso cadastro no WWOOF-UK e passei algumas semanas pesquisando fazendas que encaixassem no nosso perfil. No meu filtro, minha maior preocupação era a Alice. Eu queria que a fazenda que a gente fosse tivesse crianças com quem ela pudesse brincar. Não demorei muito, mandei exatamente 10 e-mails e tive resposta positiva de duas fazendas depois de um período de mais ou menos 2 semanas. A troca de e-mails continuou com mais informações de ambas as partes, coisas como: que dia chegariamos e quanto tempo poderiamos ficar. No começo, nos queríamos ir para as duas fazendas, mas depois não conseguimos conciliar as datas e escolhemos a nossa favorita, uma fazenda no Nordeste da Inglaterra chamada Abundant Earth.

A Abundant Earth, de acordo com a descrição, é formada por duas famílias. 4 pessoas (os casais de cada família) administram o lugar. Minha troca de e-mails foi toda feita com a Beth, uma das administradoras. Ela me falou que uma das atividades principais da fazenda era a cesta de vegetais e frutas que eles produziam para abastecer 40 famílias da região. Além disso, eles dão cursos de permacultura e de outras habilidades como fazer cestas de vime e produtos de feltro. Para mim, a melhor parte, era que entre as famílias eles tinha 4 crianças, duas da idade da Alice, e 3 delas eram educadas em casa.

Combinamos que iremos pra lá no dia primeiro de julho, e que ficaremos por 4 semanas.

E hoje eu comprei as passagens!

“Ó, que bonito, vocês vão ter férias no campo!” Para muitas pessoas, o WWOOF funciona exatamente assim, como umas férias baratas, onde você tem oportunidade de conhecer pessoas legais e ter experiências novas.

Mas no nosso caso, não foi somente isso. Viver um mês praticamente sem luz elétrica, sem água encanada e internet fez a gente perceber muita coisa sobre a vida na cidade… Mas isso vou deixar para outro post…

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Comments

  1. Ahhh, que lindos, Veronica. Exatamente a experiência que eu busco, que tanto conversamos na viagem!!! Conte-nos mais..quero saber tudo…ah e parabéns pelo blog. Acho que, além do dom da fotografia que vc tem, tem o dom da escrita, pois consegue escrever de uma forma tão clara e ao mesmo tempo tão gostosa, que a gente nem sente q tá lendo um texto gigante……é muito legal! keep movin! já disse q vc e rodrigo me inspiram, e ah, que maravilha vcs criarem a alice desse jeitinho tão especial! saudades do retiro e do nosso contato. beijão e boa sorte na nova empreitada!

    1. Valeu muito Barbara! Vamos manter o contato e quem sabe um dia nos re-encontramos? Beijos!

  2. Verônica, parabéns por você conseguir se desapegar de 3 formas: a primeira quando renunciou a todo um conforto e um clima quente para ir para outro país, frio e sem todas as facilidades que tinha; a segunda de se desapegar de pequenas coisas entre uma viagem e outra e a terceira de morar 1 mês em uma fazenda sem quase nada de conforto. Isso ensina muito e é uma experiência que vai ficar para sempre! Vem visitar a gente aqui em São Paulo! Pode ficar em casa, é pequena, mas pra você, com certeza não vai ter problemas!!! Bjs!!!

    1. Oi tia, muito obrigada! Pode deixar que quando a gente for pra SP eu faço sim uma visita! 🙂 Beijos

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