Abundant Earth, o lugar e as pessoas.

IMG_7385“There is no Bed and Breakfast that way (Não tem pousada naquela direção)”… um senhor nos avisou quando viu as mochilas que carregávamos. A gente tinha acabado de sair do taxi que nos levou o mais longe que podia na estrada onde ficava a fazenda que seria nossa casa pelo próximo mês.

Nós nunca tinhamos trabalhado em fazenda antes. Nunca tivemos espaço nem pra plantar uma hortinha em casa. Eu fiquei com medo de parecer uma total incompetente mas fui armada com a cabeça pronta pra aprender muito e fazer qualquer tipo de trabalho que fosse necessário…

Assim que chegamos, a primeira pessoa que nos recebeu foi o Matt. O Matt é um dos 4 adultos responsável pela fazenda. Ele é o verdadeiro Macgyver! O cara construiu as casas que eles moram,  faz pratos de madeira com um torno que ele mesmo fez, é ferreiro e desmontou e remontou uma Land Rover adicionando um tanque pra queimar óleo de cozinha!

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A Land Rover reformada!

Além disso ele toca violão e assobia super bem. Também fiquei mais fã ainda dele quando ele me perguntou se eu queria ir pra aulas de circo que ele fazia em Newcastle, o que me deixou extremamente feliz já que eu achava que iria passar o mês inteiro morrendo de saudades de fazer acro-yoga.

Bom, o Matt nos mostrou parte da terra assim que chegamos, enquanto caminhávamos, passamos por um trampolim onde 3 meninos (Pip, Louie e Hollin) estavam brincando. A Alice não se fez de timída e já ficou por lá mesmo.

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Andamos até a casa da Beth (a pessoa com quem eu tinha conversado por e-mails até então) que preparou um chá pra gente e começou a explicar como seria nossa rotina. Depois do chá nos fomos conhecer nossas acomodações (o Tunel).

Nosso lar

Nosso lar

O Tunel era nossa casinha. Era basicamente uma estrutura de madeira que media por volta de 3 x 2 metros. A estrutura era coberta por lã de carneiro sustentado por galhos de vime. Nesse pequeno espaço ficava nossa cama, a cama da Alice, uma comoda pra guardar as roupas e um fogãozinho onde faziamos nossa comida.

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Ela também nos mostrou onde ficava o banheiro de compostagem e onde pegar água. A fazenda não tinha água encanada, então o esquema funcionava assim: água da chuva era pra tomar banho (de caneca) e lavar a louça. E água que vinha de uma nascente pra beber e cozinhar. A energia que eles tinham vinha de painéis solares. Ou seja, durante o verão tinha muita energia e durante o inverno eu nem consigo imaginar como eles se viram.

Eu gostei da Beth desde o primeiro momento. Ela tinha um jeito calmo e alegre que me fez sentir como se aquela também fosse minha casa logo de cara.

Beth relaxando conversando com uma amiga.

Beth relaxando conversando com uma amiga.

As duas família que moram na terra são estruturadas dessa forma: Beth e Wilf, pais de Oaken (12) e Hollin (6). Matt e Jo, pais de Pip (11) e Louie (6). Eles se conheceram há mais de 15 anos quando estudavam na faculdade e desde então moraram juntos em outras comunidades. A terra onde a fazenda estava, eles compraram juntos há 10 anos.

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Da esqueda pra direita: Ro, Wilf, Beth, Matt e Jo.

Quando a gente estava lá, eles tinham acabado de terminar de pagar os empréstimos que eles pediram pra familiares e amigos pra poder comprar o espaço. Nós ajudamos a preparar um banquete que eles ofereceram em agradecimento para essas pessoas.

Preparação do banquete

Preparação do banquete

A Jo era um pouco mais reservada, eu me identifiquei bastante com ela apesar de não termos conversado muito. Ela fazia cestas de willow (um material parecido com vime) e já tinha sido professora de yoga. O Wilf foi a pessoa com quem tivemos menos contato. Quando chegamos ele estava viajando, ele voltou por um periodo breve e viajou de novo. Nós só pudemos conversar um pouco mais depois que o aniversário de 40 anos dele passou. Foi um momento muito especial pois era a primeira vez que o pai dele visitava a fazenda.

Aniversário do Wilf.

Aniversário do Wilf.

Além dos 4 adultos e das 4 crianças, de WWOOFers que eles sempre recebiam, eles também tinham um amigo que trabalhava na horta durante 3 dias por semana e vários voluntários que vinham por algumas horas por dia.

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Alice, Louie e Hollin apresentando uma peça de teatro. Eles incluiram ela em todas as atividades que fizeram.

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Crianças no capo do carro

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Alice pegando umas dicas de Minecraft com os meninos.

Agora vem o momento oversharing. Porque ninguém quer saber só das coisas felizes da vida dos outros. Quando rola um drama, dá aquele toque de realidade, né? Então, ai vai: Quando eu penso no tempo que a gente passou na fazenda e no que eu aprendi, uma das coisas que eu mais dou valor foi o tempo que eu passei observando a vida que as famílias levavam… É um assunto que eu volta e meia eu pensava quando eu me sentia deprimida: a vontade que eu tinha de que alguém me ensinasse a viver. Eu sempre achei que a forma como eu levava a vida antes não era a mais saudável, eu também tinha a forte impressão de não ter tido muitos exemplos legais de como se levar uma vida em família de forma tranquila. Então eu sempre tive essa vontade de poder observar alguém. Eu queria aulas práticas de como viver na simplicidade, ordinariedade e, por que não?, beleza do dia a dia. E essa minha vontade foi um tanto saciada depois de ter ido pra lá. Claro que nem tudo era perfeito. A gente pode observar depois de um tempo quais eram os pontos de tensão entre as pessoas. Mas mesmo assim, todo mundo se tratava com muito respeito e amizade. Eu percebi também como uma rotina que envolve vida familiar e um trabalho significativo difere de uma vida neurótica na cidade. No caso da fazenda, o trabalho que a gente fez, que eles fazem, se não fosse feito, resultava que todas as pessoas que dependiam daquela terra teriam que ficar sem água, com fome e sem casa. Um pouco mais sobre a nosso rotina e mais fotos no próximo post.

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Comments

  1. Vê, adorei, continua sempre por favor. Lembrei de muito do que vivemos em Africa. Um àparte . Escreves muito bem.bj

  2. Que experiência! Fiquei com vontade de passar pelo mesmo. Parabéns! 🙂

  3. Vê, admiro muito o que vocês estão fazendo pela Alice. Que infância incrível! Adorei o texto… não vejo a hora do próximo post!

  4. Ah, nem preciso falar que me emocionei e vivi com vcs (ainda que imaginando, por meio da leitura) esses momentos que passaram…que p. experiênciaaaaaaaaaa! incrível…sei que será assim tb lá na Espanha. Sorte e luz no caminho de vcs..beijos no coração

  5. Ah, lindo relato e experiência ainda mais incrível…escreve maisssssss e conta depois sobre a rotina lá em málaga 🙂 saudadessss

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